Um pouco de Sinha Vitoria

Na febre do mundo digital e da exposição em excesso, só não é feliz quem não quer. A tecnologia está aí pra te mostrar que bastam alguns truques, alguns filtros ou checkins em lugares bacanas para verem como você é “cool” e como você tem status. Será mesmo?

Dispor de um celular moderno e escancarar para o mundo as suas fortalezas ou os seus tesouros talvez seja, na verdade, uma fuga da realidade. O mundo de hoje exige status, um bom posicionamento social, popularidade, beleza, etc. Não precisa ir muito longe pra sermos bombardeados por livros de auto-ajuda com títulos celebres: “como ser feliz em 12 passos”, “como atingir sucesso na carreira profissional”, “como ser bons pais”, “como ser um líder”… e nessa busca desenfreada por sucesso, em qualquer esfera social, adoecemos. Talvez por nao entender o real significado do sucesso ou por sucumbir a essa busca incessante por algo que as vezes nem sabemos direito o que é.

O último capitulo das novelas são sempre os mais felizes, como se a realidade pudesse realmente ser assim. Tudo acaba em festa e casamento, as pessoas riem, o vilão se redime e as pessoas vivem contentes. Esse apelo emocional que as novelas tem sobre as famílias brasileiras acabam por ratificar que só não é feliz quem não quer, mas para isso é preciso ter alguns pré-requisitos…é preciso ser magro, ter muito dinheiro, tem o carro do ano, fazer uma mega festa de casamento, ser dono/presidente da empresa. A felicidade se resume, então, em conquistas materiais e superficiais. Triste.

Infelizmente, toda essa pressão gerada pela sociedade do consumo incide em nós, reles mortais, e tem a incrível capacidade de gerar angustia, prejudicar os relacionamentos e de nos levar a uma competitividade desenfreada. Não estou querendo dizer que você não deve ir atrás dos seus sonhos, muito pelo contrário…eu na minha busca pela carreira de medica com a psicologia latente na veia e no diploma, sou a prova viva de que temos sim que atrás daquilo que nos motiva, que faz nossos olhos brilharem, desde que isso não seja mero fruto da ostentação e da ideia incutida de que temos que ser melhores que o outro sempre. O desejo genuíno de realização profissional, de fazer o bem e usar a sua força de trabalho para contribuir para o bem da sociedade é a chave para o sucesso, pelo menos ao meu ver. A realização profissional não vem com o esforço árduo e vazio da busca egoísta, o apelo material do mundo de hoje pode até dizer que sim… mas eu realmente nao enxergo desse jeito. Fazer o que se gosta, fazer com o coração, na busca pelo bem seu bem estar social e dos que estão a sua volta, poucos livros de auto-ajuda vão dizer pra você. Tudo bem que esse texto também parece um texto de auto-ajuda hahahaha mas nada mais são do que reflexões de uma psicologa apaixonada pelo ser humano em essência.

Pra finalizar, eu queria colocar aqui um trechinho do livro Vidas Secas que eu terminei de ler ontem, leitura obrigatório pra FUVEST e pra UNICAMP. Santo Graciliano Ramos, me pegou de jeito com esse livro…me emocionou e me fez chorar.

“Aprumou-se e endireitou o baú, remexeu os beiços numa oração. Deus Nosso Senhor protegeria os inocentes. Sinha Vitoria fraquejou, uma ternura imensa encheu-lhe o coração. Reanimou-se, tentou libertar-se dos pensamentos tristes e conversar com o marido por monossílabos. Apesar de ser boa de língua, sentia um aperto na garganta e não poderia explicar-se. Mas achava-se desamparada e miúda na solidão, necessitava um apoio, alguém que lhe desse coragem. Indispensável ouvir qualquer som. A manhã sem pássaros, sem folhas e sem ventos, progredia num silêncio de morte. A faixa vermelha desaparecera, diluíra-se no azul que enchia o céu. Sinha Vitoria precisava falar. Se ficasse calada seria como um pé de mandacaru, secando, morrendo. Queria enganar-se, gritar, dizer que era forte, e a quentura medonha, as árvores transformadas em garranchos, a imobilidade e o silêncio não valiam nada. Chegou-se a Fabiano, amparou-o e amparou-se, esqueceu os objetos próximos, os espinhos, as arribações, os urubus que farejavam carniça. Falou no passado, confundiu-o com o futuro. Não poderiam voltar a ser o que já tinham sido?”

Ao meu Fabiano, obrigada por estar comigo nessa caminhada! <3