Dilemas de Alice

Não leia esse texto se você estiver triste ou chateado com as coisas da vida…

É chato começar meu próprio post falando isso, mas eu preciso falar a verdade. Mais do que isso, eu preciso desabafar e eu não quero transmitir minhas angustias pra ninguém. Me chateia mais ainda pensar que eu meu maior objetivo com esse blog e com o instagram é motivar pessoas, lutadores como eu, e não estou conseguindo fazer isso da maneira que eu gostaria pela simples necessidade de achar um canto pra contar, linhas e palavras pra me entenderem.

Pois bem, a medicina não é um mar de rosas. A faculdade não é de longe o acolhimento que eu buscava. É o oposto disso… a medicina é dura, é ingrata, a faculdade é um lugar hostil e isso tudo tem me feito muito mal. Talvez  eu seja responsável por tudo o que eu estou sentindo hoje.. idealizei demais, sonhei demais e desejei demais. Subi a ladeira do cursinho correndo e arfando, acreditando fortemente que quando eu chegasse no cume, eu seria a pessoa mais feliz da vida, veria o mundo de outras formas, ampliaria o horizonte e veria o tanto de coisas que eu ainda tenho pra conquistar… Que ingenuidade a minha! O mundo continua o mesmo daqui de “cima”, as pessoas continuam ruins (algumas bem piores do que eu supunha). É uma competição e uma disputa por espaço que eu nunca tinha visto… Pasmem, há pouco companheirismo entre colegas acadêmicos (já não espero que entre colegas profissionais seja diferente), algo que destoa completamente dos meus ideais. Eu sou sonhadora, eu sei… pensei que ia encontrar pessoas maravilhosas que lutam avidamente pela construção de um mundo melhor, pautado do amor ao próximo (é pedir demais?). Agora encontro pessoas que não te cumprimentam, não respeitam sua ideologia, seu histórico de vida. Como esperar dessas pessoas que elas respeitem pacientes e suas dores?  Longe de querer ficar julgando, a essa altura do campeonato eu só quero me afastar dessas pessoas…

A verdade é que eu tenho tido dias difíceis, o semestre está acabando e me sobra aquele cansaço de quem não aguenta mais ver a mesmas pessoas e não encontra nelas a identificação necessária pra juntar forças e seguir em frente. Sentimento de não pertencimento, é o que define.

Somo a tudo isso à dificuldade imensa de lidar com a dor do outro. Apesar de ter pouco contato com o paciente, no projeto dos palhaços que faço no hospital, toda segunda feira visitamos a área de cuidados paliativos. Eu sempre volto com o coração um pouquinho dilacerado, com medo de passar por aquilo, de ver pessoas amadas sofrerem e sentindo na pele a impotência de tirar o sofrimento de uma pessoa, seja ela paciente ou familiar.

Pra fechar a conta dessa bad dos últimos dias, estou longe dos meus pais e dos meus amigos de SP há muito tempo.. o que me faz sentir um pouco mais sozinha, um pouco mais isolada, um pouco mais angustiada…. Ando nostalgica, lembrando dos meus anos de cursinho antes da psico, tudo o que eu poderia e deveria ter feito naquela época. Achei que isso passaria depois que eu entrei na faculdade e por mais bobo que pareça, mesmo eu combatendo arduamente o “Vc é velha demais pra isso”, as vezes eu me sinto sim velha demais.

Não, não estou arrependida das minhas escolhas. Nem um pouco…eu sei e eu sinto que estou no caminho certo. Todas essas angustias e esses conflitos internos me fazem ver o quanto eu quero tudo isso. O quanto eu tenho em mim os meus objetivos firmes e são por eles que eu luto.

Sigo acreditando que é possível sim construir uma medicina melhor, apesar de muitos indícios me mostrarem o contrário. Talvez toda essa confusão sirva pra me fortalecer, pra me fazer ser uma pessoa ainda mais forte e mais sonhadora…. Afinal foram os meus sonhos que sempre me impulsionaram pra frente. Eu só desejo que continue assim.

17 thoughts on “Dilemas de Alice

  1. Carol

    Fantástico! O fato é que talvez agora você esteja começando a encarar as situações que farão parte do seu futuro: a conviver com a dor, a ajudar dentro das possibilidades, dar o melhor de si, mas sem “viver” essa dor. Trabalho como voluntária há 4 anos em um asilo, e no começo sofria muito com as dores dos idosos. Me sentia impotente. Mas o tempo me ensinou que estou ali para dar-lhes conforto, palavras de apoio, de amizade. Sentir compaixão é uma coisa, mas se entregar a dor igualmente e sofrer com eles não ajuda muito. O importante é transmitir confiança, segurança, com amor e ética. Isso sim ajuda, dá ânimo.
    Quanto a seus colegas, não se preocupe. O tempo trará as respostas para cada um. Cursar e trabalhar na medicina é uma coisa. Mas amar e exercer esse “sacerdócio” como filosofia de vida é bem diferente. Fique tranquila, que dará tudo certo, e confie em si mesmo e no caminho que segue!

    1. T.Ar

      Poxa vida, fiquei emocionada. Acho que eu precisava ler isso… Obrigada por ter disposto do seu tempo pra me dar uma luz e um carinho com suas palavras, vc não tem noção do bem que me fez 🙂

  2. Natália

    Quando eu entrei na faculdade, pela primeira vez, com 17 anos, também estava cheia de sonhos. Achava que, finalmente, ia me encontrar e encontrar pessoas parecidas comigo. Mas não foi bem assim. Encontrei um lugar competitivo, cheio de gente fútil, querendo humilhar o outro…, e no meio de tudo isso eu tentei me adaptar. Tentei beber cerveja (não gostei e não gosto até hoje), fiquei ouvindo discos do Chico Buarque pra ter assunto, fingi entender o que é dialética, fingi gostar de carnaval. Antes de entrar na faculdade, eu só queria me encontrar, ser aceita, achar meu lugar ao sol, ser moderninha tupiniquim. Depois de sofrer muito, engordar, emagrecer, largar o curso, ir a psicologa, mudar de cidade…. depois de tudo isso o que eu mais quero é ser eu mesma. E quase nada é tão ousado quanto ser quem a gente é. Revolucionário, eu diria. Não sou uma moderninha que fuma cigarros ao som de samba em baladinhas da vila madalena, eu sou eu, menina que cresceu no interior, nerd, que adora literatura, video-game e pessoas, não tenho muitos amigos e gosto de ficar sozinha, eu acredito em Deus, acredito que tudo vai ficar bem. E o mais louco de tudo: quero ser médica. Tentei evitar, tentei desistir. Fiz de tudo! Até em faculdade de história eu entrei pra fingir gostar de outra coisa. Mas a medicina sempre esteve ali do lado, me olhando e me dizia… “Pronto, Natalia, já desistiu de desistir de mim?”… (haha)
    E de novo, crio pensamentos fantásticos sobre uma faculdade de medicina humanizada. Penso em ser ginecologista-obstetra. Penso em trabalhar no sus e ajudar pessoas. Penso na faculdade maravilhosa, no mundo maravilhoso, nos livros de anatomia. É normal sonhar. Mesmo que a gente tenha 17 anos ou 30.
    Hoje eu estou triste, mas o teu texto não me deixou mal, de nenhuma maneira. Só me fez lembrar o quanto as coisas são difíceis. E não existe uma solução mágica para isso.
    Com o tempo me tornei forte. Assim como você também se tornou ao longo da tua trajetória. Não desista de ser quem você é! Não desista da tua visão otimista nesse mundo sombrio. Há muitas pessoas como você. E eu acredito que ser quem é a gente é, é a melhor maneira de se viver.

    (Sou Natália! Aquela que fez o instagram pra te seguir, a que gosta de the knick hehe)

    1. T.Ar

      Linda, linda, linda!! Obrigada pelo comentário! Temos muitas coisas em comum, pelo visto… Bom saber que não estou sozinha nesse mundão e existem pessoas boas como a gente, fortes e valentes como a gente! Conte comigo na sua caminhada, ok? 🙂

  3. Izabel

    Comentei no seu IG e vim ler seu post. Eu entendo o que vc passa pq eu vivo muito disso. A minha turma é insuportavelmente competitiva. Apesar de serem bons alunos eles são tão, mas tão chatos que me Vi como vc, sem paciência para ouvir sequer a voz de alguns deles. Parece que todo mundo quer mostrar que é melhor, ou é bom. E não é assim que se conquista espaço… Eu por ex. Fiz amizade com muitos professores só de mostrar q eu sou estudiosa. Não preciso me mostrar brilhante. Mas fique tranqüila, esse pessoal acaba atraindo a antipatia inclusive dos professores.( tem um na minha turma que considerado “aluno especial”, uma espécie de retardado msm) Faça seu melhor e se afaste dessa competição, junte-se com quem quer te ajudar a crescer. Quando nos formamos os pacientes n perguntam onde vc se formou, nem como eram as suas notas… Mas eles reparam se vc deu bom dia e olhou nos olhos deles. E não tem NADA melhor do que um elogio de um paciente. 😘

    1. T.Ar

      Vc já é muito querida por mim, vc sabe né? Obrigada por ler, me escrever, enfim… Seguimos caminhando né? 🙂

  4. Fernanda

    Nossa, li seu texto esperando outro tipo de desabafo, qdo fui prosseguindo senti que era eu me expressando. Sinto como vc, sinto falta de pessoas que se importam, amo a medicina, amo o que faço e tenho a certeza que nasci para ela. Entretanto, na segunda semana estsva em prantos pq não era como eu sonhava, pq eu me sebtia um peixe fora d’água e pq as pessoas, msm na Medicina, não são nenhum pouco humanas! São egoistas e querem ser melhores que as do lado smp, a comparação de nota é o que mais resume isso no 1° ano, porém é em tudo!!! Acalme o coração pq, embora encontremos esse tipo de pessoa smp, o nosso dever será cumprido com mto amor e dedicação e, assim, atrairemos mtas pessoas iguais a nós para perto da gente. P.s.: não sabia qye vc tinha um blog tbm, já sigo vc no ig, tenho um ig tbm @avidanamedicina beijooos, é um prazer acompanhar vc!

    1. T.Ar

      Peixe fora d’agua!! É bem assim que eu me sinto!!! Eu fico mais tranquila de saber que não estou sozinha, sabe? Conheço seu ig, sei da sua luta e o quanto vc foi valente pra conquistar o que conquistou. Não podemos deixar essas pessoas nos derrubarem, né? 😘

  5. Lorena

    Olá, eu já te admirava bastante seguindo suas pastagens no ig..e ao ler esse texto a minha admiração só aumentou. Você é uma pessoa incrível, e eu penso exatamente como você, também sou acadêmica de medicina. Continue a espalhar seus pensamentos porque tem muita gente boa que se identifica, e que no dia a dia se sente meio que alheia a medicina porque as pessoas só reclamam de tudo, ao meu ver só estudam pra tirar notas altas e competir, sem pensar em sua formação acadêmica. São de uma imaturidade enorme, e a maioria de princípios contrários ao nosso, que fazem- nos ficarmos com o coração apertado diante disso. Continue dividindo conosco suas vivências. Adorei lê – las, e desabafar o que também venho vendo ao longo do curso. Beijos

  6. kleber

    Olá,

    T.ar, vou entrar com um assunto off-topic. Você sabe mais ou menos qual é a nota final dos aprovados na famerp? Estou pensando em prestar e queria fazer umas contas… rs

  7. Alexandre Alves Porfirio Vieira

    Você é grade, Thais.
    Foram seus sonhos que te guiaram e fizeram você passar da fase tão árdua do vestibular, eles concretizaram isso. E mais; por ainda restarem mais sonhos (o desejo de construir uma Medicina melhor), ainda há sofrimento, mas, tudo isso acabará sendo abafado pelo prazer imenso de você estar fazendo o seu melhor, adoraria encontrar colegas como você quando entrar na Faculdade de Medicina, mas sei que terei muitos opositores, muita hostilidade. Porém, sempre há quem pense como nós, quem nos respeita. Essas pessoas sim, serão bons profissionais, dos quais, vale a pena você se aproximar. Força nessa luta, sei que a distância das pessoas que amamos nos dá um pouco de solidão, mas no final tudo dará certo. Se porventura eu for aprovado na Famerp, posso ser seu calouro… kkkkk
    Beijos, e um forte abraço.

    1. T.Ar

      Será meu calouro com o maior prazer! Torço muito por vc, sabia? Sinto daqui o mesmo amor que eu tenho pela medicina, vc tem tb! Tenho certeza que vc vai chegar lá!

      1. Alexandre Alves Porfirio Vieira

        Tomara, Thais!! Quando isso acontecer, será maravilhoso… Toda hostilidade será suprimida pela minha vontade de contribuir com o meu conhecimento para algo útil à humanidade.

  8. Mariana

    Post incrível e sensível, Thaís. Estou até sem palavras para dizer qualquer coisa ante a verdade dessas suas linhas. Espero que você se fortaleça e desenvolva a temperança necessária para lidar com todas essas angústias. O mundo, e falo isso com muita honestidade, precisa de mais pessoas com teu coração. Espero que todos esses fatores não te abalem ainda mais. Sê forte e fica com Deus. (Conheci seu blog por meio do face e devo admitir que nunca estive tão contente por achar um blog desse nível). =)

    1. T.Ar

      Que linda Mariana! Super obrigada por essa mensagem! Foi um presente de ank novo 🙂 Andei meio sem tempo pra escrever no blog, mas agora nas férias eu vou recomeçar 😉

  9. Eu na Medicina

    Nossa, tudo o que escreveu é exatamente o que eu sinto e também reflito.. Acho que estamos juntas neste barco.. também aprovei no vestibular ano passado..atualmente tenho 27 anos (me sinto velha perto da minha turma) e já tenho uma graduação.
    Eu acredito que essa visão de que os outros são totalmente hostis é porque nós, pessoas que já possuem uma vivencia universitária anterior já tivemos o privilégio de conviver com pessoas totalmente diferentes desse meio “medicina”.
    Esse meio já vem de caminhos árduos de competição, eu vivo isso diariamente com a minha turma aqui também… coisa que não existia em minha outra graduação.. no lugar de ajudar os colegas como era antes, na medicina vejo que muitos até mesmos quem consideramos amigos, quando o aperto chega é apenas o próprio umbigo que prevalece. Estou aprendendo a lidar com isso dia-a-dia.
    Isso não é só por parte dos colegas, vejo também a faculdade muito inútil em muitas coisas.. é complicado demais. Eu estou em SP capital, e você no interior… para te falar a verdade, minha vontade era estar em Ribeirão, e eu acredito que a sua era estar aqui em SP.
    A vida é realmente impressionante.. mas a unica coisa que eu sei é que cada pessoa tem o seu destino, e por isso estamos onde estamos.
    Te desejo boa sorte ai, e que seja um bom ano!!
    Beijosss

    1. T.Ar

      Obrigada por compartilhar comigo as mesmas angustias 🙂

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