A vida medicina no interior

Sair de casa é difícil… passar numa faculdade de medicina fora de casa é ainda mais difícil.

E saí da casa dos meus pais há alguns anos, quando ainda estava na minha primeira faculdade. Morava em São Bernardo do Campo e fazia faculdade na USP, demorava cerca de 5 horas por dia entre ônibus, metrôs e pessoas desenfreadas. Acabei me mudando pra perto pra aproveitar mais o tempo, me dedicar melhor aos estudos e pra não ser mais uma descompensada a habitar o caos que é a grande São Paulo. Passei por 3 repúblicas diferentes e só na última encontrei meu refúgio.

O QUE OS CURSINHOS NÃO TE CONTAM

Morei com amigas da minha sala e encontrei as irmãs que a vida me deu. Alguns anos depois elas saíram e eu continuei habitando um imenso apartamento de 3 quartos no meio do Butantã. Aos trancos e barrancos consegui arrumar outras pessoas pra dividir “aquela mansão”, mas eu já não era mais a mesma e andava meio sem paciência para os recém saídos da casa dos pais.
No final das contas, todo mundo que acaba de mudar vive uma espécie de roteiro da libertação:
Se enche de orgulho porque conseguiu uma independência ilusória -> gasta todo o dinheiro que os pais dá em menos tempo do que deveria -> pede mais dinheiro e toma um esporro -> percebe que pode sair a qualquer dia e qualquer hora sem dar satisfação -> sai de balada no meio da semana e se acha a ultima bolacha do pacote -> enche a cara sem que os pais descubram -> vive a base de miojo e brigadeiro porque tem a maior preguiça de cozinhar depois de passar o dia inteiro na faculdade -> acaba cansando porque o ritmo é intenso e começa a sossegar -> encontra um namorado/namorada sedutor que te convence de que é melhor passar o fim de semana debaixo das cobertas engordando e vendo filme -> começa a trabalhar e ganhar mais responsabilidades -> percebe que precisa lavar suas próprias roupas, o próprio quarto -> a bagunça dos companheiros de republica começa a encher o saco -> as festinhas no meio da semana vão ficando intoleráveis porque você está cansado demais e PRECISA acordar cedo no dia seguinte -> percebe que a melhor coisa é morar sozinha(o) pra não ficar de saco cheio de tudo aquilo que te irrita -> sai da república e aí só Deus sabe!

O começo desse ano me proporcionou uma experiência completamente nova: sair da minha propria casa! Como eu já morava sozinha há um tempo, já estava habituada a ter minha independência e já tinha vivido exatamente todo o roteiro. Mas mudar não foi mais fácil por conta disso. Muito pelo contrário. Em fevereiro eu me vi abrindo mão e deixando pra trás o primeiro apartamento que eu aluguei com tanto esforço e carinho. Fechar as portas daquele lugar que eu carinhosamente apelidava de “Kinder Ovo” foi uma das etapas mais dolorosas da minha vida. E quando eu cheguei em Rio Preto e me deparei com um apartamento quase 2 vezes maior (e com aluguel 2 vezes mais barato) eu me senti vazia, sem lar… Talvez eu tenha me apegado demais aquela independência, à vida urbana, aos meus amigos que eu fiz com tanto carinho e dedicação, aos meus pais tão amados… foi somente aos 28 anos que eu senti a dor de deixar pra trás os amores da minha vida. Foi então que o percebi que o tal roteiro da libertação talvez não seja exatamente do jeito que eu descrevi, talvez eu tenha pulado algumas etapas que eu só consegui viver agora, talvez independência seja uma coisa completamente diferente do que eu imaginei até então… não é só financeira, é também emocional. É saber seguir o caminho por causa de um ideal de vida e se orgulhar disso. É saber que nem sempre você vai ter a sua mãe ali do lado, nem sempre você vai poder ver seus amigos no final de semana, na verdade você vai ter que aprender a passar meses sem encontrar com um deles. É amar via Skype e grupos do WhatsApp… é ter a leveza espiritual pra entender que tudo acontece por um motivo e se eu vim parar aqui, é porque isso era exatamente o que eu precisava. É aprender a gostar de outra faculdade além da USP, fazer novos amigos ou se esforçar pra isso… é aprender a estudar na estrada, economizar dinheiro porque cada centavo será usado na próxima passagem ou no lanche durante a parada. É parar de odiar São Paulo por causa do trânsito e repetir todos os dias o mantra “no interior temos mais qualidade de vida” pra sufocar a saudade de andar na Paulista no domingo a tarde.
É descobrir um mundo novo… novos prazeres sem jamais se desfazer dos antigos, aos poucos eu tenho aprendido a amar… Aqui é quente, mas ainda não falta água… As pessoas são simpáticas e tem um sotaque engraçado. O céu é mais bonito que o de SP, eu moro a 7 minutos a pé da faculdade e nunca pego trânsito. Aqui eu faço a minha tão sonhada e amada medicina. E esse é sem duvida, o suficiente pra eu não querer sair daqui… pelo menos pelos próximos 5 anos e meio.

O QUE OS CURSINHOS NÃO TE CONTAM

Ando recebendo bastante mensagem de pessoas que leem o blog e frequentam o Instagram, são sempre palavras que mexem muito comigo porque eu me vejo em cada um que sofre a angustia de ainda não viver a vida medicina. E são justamente essas palavras que me fazem querer escrever mais e mostrar um pouco do meu novo mundo ou da minha historia.

Obrigada a todos que perdem um minutinhos comigo 🙂

6 thoughts on “A vida medicina no interior

  1. Ivi

    Vivi isso tb ao fazer psicologia no Rio, até então morava no interior, e é exatamente esse o roteiro, hahaha! Foi fundamental passar por isso tudo, e admiro a sua coragem de passar por todas essas mudanças! Eu tô disposta a passar por isso q d a minha vez chegar, mas to torcendo pra passar aqui na minha cidade, hehe 😉

  2. talison

    Ahhh, eu estava mesmo precisando ler isso! Eu estou pensando em cursar em outro estado, um estado bem longe, então é bem provável que eu sinta um pouco do que você escreveu! O que você cursava na USP? Tens um e-mail para que eu possa te escrever? Preciso tirar uma dúvida com você.

    1. T.Ar

      Oi Talison, pode me mandar no [email protected] 🙂

      1. talison

        Obrigado! Já te mandei um e-mail.

  3. Marcio

    Acabei descobrindo seu blog de uma forma meio inesperada… tava procurando pelo grupo da minha turma de educação artística da UFRJ… minha graduação abandonada que eu tanto amo… (sou graduado em educação física)

    Tenho passado por madrugadas onde a Medicina vem com espasmos… na verdade contrações (como as do parto)… pq eu tinha abandonado esse sonho… mais uma vez…

    E nessas crises de querer fazer algo… de querer de sentir útil, achei o grupo MEDICINA DEPOIS DOS 30, o qual eu era tão assíduo… e vi sua postagem sobre o blog… resolvi clicar e me deliciei com essa maravilhoso texto…

    Eu nunca passei por crise tão intensa… por essa vontade imensa de exercer essa profissão… estou pensando que são as contrações finais… acho que nascerá… de uma vez por todas, a minha coragem de abrir mão de coisas, da comodidade de me dedicar a passar nessa prova… sei que sou capaz… mas as dúvidas são cruéis… a incerteza me faz titubear… sempre…

    Tenho uma esposa que me dá muita força… mas estou em um nível de desânimo tão grande que ela meio que nao acredita mais… nem sei mais o que fazer…

    1. T.Ar

      Querido, tomar uma decisão tão grande realmente não é fácil. Mas se faz muito necessária nesses momentos de crise pessoal. Eu sofria muito a frustração profissional e a crise da idade… a melhor coisa que eu fiz foi ter largado tudo pra trás. É preciso coragem.Espero que consiga!! 🙂

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