Do SUS que temos ao SUS que queremos

Quem me segue no instagram e no snapchat já deve ter percebido que eu estou me formando como ferrenha defensora do SUS. Tenho lido bastante coisa sobre saúde coletiva, atenção primária, medicina da família e tudo o que eu tenho direito pra ser a famosa “médica de postinho” pobre e feliz! hahahaha Quem me conhece bem sabe que dinheiro é a última coisa que me motiva a fazer medicina – não sou hipócrita a ponto de falar que ele não me motiva em nada – e bem longe de querer ser beatificada por isso, saúde pública,é de fato, uma das coisas que mais tem me chamado atenção ultimamente. Tive que fazer uma redação pequena falando sobre o que vimos de SUS esse semestre e achei muito justo compartilhar com vcs. Se tiverem dúvidas, me escrevam. Beijox.

*esse texto é de autoria própria*

Pode-se dizer que em algum momento da vida, todo e qualquer brasileiro teve algum contato com o Sistema Único de Saúde, o SUS. A grande maioria da população depende exclusivamente dos serviços oferecidos, reconhecidos principalmente por meio da assistência médico hospitalar. Uma outra parcela se beneficia do serviço, ainda que não perceba esse usufruto, já que ele vem caracterizado através de campanhas sanitaristas, epidemiológicas ou ambientais. Portanto, é fácil reconhecer que em maior ou menor grau, toda população brasileira se beneficia desse sistema que tem como objetivo a promoção da saúde e proteção contra os riscos decorrentes do convívio social.

Apesar do SUS ser o maior sistema público de saúde do mundo e apresentar uma extensa rede de serviços, é possível se perceber uma enorme discrepância entre o que o sistema é e como ele é percebido pela população. Boa parte dessa distorção é provocada por diversos casos em que o atendimento é incipiente ou que há faltas de recursos e também pelos meios de comunicação que funcionam como cabides eleitorais, se beneficiando das falhas para promover uma política parcial. Evidentemente que, por ser um sistema de grande abrangência, a qualidade dos serviços não é a mesma quando comparadas regiões socioeconomicamente bastante distintas. Também é facilmente observado que quando o SUS permeia os meios de comunicação de massa, na imensa maioria das vezes são destacados pontos negativos, as demoras, filas intermináveis, a falta de recursos e raramente são destacados a eficiência dos serviços, a grande quantidade de atendimentos e tratamentos que são oferecidos gratuitamente. Reforça-se o senso comum de que o que é público é deficiente e inferior, corroborando com o ideal neoliberal de que somente consumidores ativos conseguem se beneficiar de atendimento de saúde de qualidade.

O SUS pode ser entendido como uma política de Estado herdada dos movimentos sociais iniciados com a Reforma Sanitária Brasileira que modificaram profundamente o cenário da saúde no país. Se fundamenta numa perspectiva universalista do direito à saúde traduzida em princípios e diretrizes. O SUS se apoia nos princípios de universalidade, que supõe a eliminação das barreiras socioeconômicas e culturais; igualdade que requer, inevitavelmente, a equidade, ou seja, a consideração da condição socioeconômica de determinado grupo social, priorizando a atenção àqueles cujas condições sejam mais precárias; e integralidade da atenção à saúde a partir de um conjunto de ações de promoção, prevenção, assistência e recuperação com apoio de equipes multidisciplinares. Além desses, o SUS se estrutura a partir de princípios estratégicos como a descentralização da gestão dos recursos, regionalização e hierarquização do serviço, na tentativa de articular as unidades de maior e menos complexidade, montando uma enorme e complexa rede de atendimentos.

Obviamente que o SUS como descrito anteriormente é desconhecido para a grande parte da população, nos levando a identificar que existem diversas concepções sobre o que é o sistema de verdade. Existe o SUS assegurado pela constituição cidadã, com seus princípios e diretrizes estabelecidos; existe o SUS apresentado pela grande mídia como o sistema falido e existe o SUS que “dá certo”, verificado através de milhares de tratamentos e medicamentos que são fornecidos diariamente para a população. Há, na verdade, um grande desconhecimento sobre o que é o Sistema Único de Saúde, tanto por parte da população quanto por parte dos próprios profissionais do sistema. Apesar do SUS ser garantido como um direito pela contribuição de cada cidadão, a oferta dos serviços é vista como um favor e não um direito adquirido através de lutas sociais, o que dificulta a conciliação entre o SUS que temos e o SUS que queremos, principalmente quando se desconhece na medida exata neoliberal o que na verdade o SUS tem para oferecer.

One thought on “Do SUS que temos ao SUS que queremos

  1. avidamedicina

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